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Mutilada, Khady

Terça-feira, 17.02.09

 

Ao contrário da última obra que comentei neste meu cantinho, esta obra merece todo o destaque e todo o meu respeito, tendo em conta a sua temática.

A sua autora nasceu no Senegal em 1959. Foi excisada aos 7 anos e aos 13 casou com um primo por imposição da família. Actualmente vina na Bélgica e é presidente da Rede Europeia de Luta Contra a Mutilação Genital.

Mutilada é a prova da grande coragem de Khady em falar, de forma nua e crua, da sua vida, das tradições da sua sociedade.

 

A páginas tantas, Khady diz:


"Em língua soninké a nossa avó anunciou-nos que íamos ser salindé, para, ssim 'podermos rezar', o que quer dizer, na nossa língua, 'ser purificadas para podermos aceder às preces. Ou seja, 'excisadas'. Também se diz: 'cortadas'.

(...)

É um perfeito embuste ter sujeitado e continuar a sujeitar as mulheres africanas àquele ritual, o qual, aliás, nem sequer tem absolutamente nada a ver com a religião. No entanto, nos nossos países da África negra, a excisão é praticada tanto pelos animistas como pelos cristãos, pelos muçulmanos ou pelos judeus falashas. A sua origem remonta a muitos séculos antes da chegada da religião muçulmana. Os homens sempre a defenderam, por diversas e más razões: para assegurar o seu poder, para ter a certeza de que as suas mulheres não iriam ter com outros genitores e para que homens pertencentes a tribos inimigas não as violassem! Outras explicações, ainda mais absurdas, pretenderiam que o sexo das mulheres é impuro e diabólico - o clitóris, ele próprio diabólico, ao tocar na cabeça de uma criança aquando do seu nascimento condená-la-ia desde logo a não se sabe que desgraça ou, até mesmo, à morte. Alguns chegaram ao ponto de afirmar que aquela falsa representação de um minúsculo pénis poderia vir a fazer sombra à virilidade masculina."

 

 

Absurdo, no mínimo!!!

 

Mais tarde, Khady descreve a matança a que foi sujeita, apenas com 7 anos de idade.

 

"Duas mulheres agarraram em mim e conduziram-me para o quarto. Depois de me deitarem, uma delas, por trás de mim, agarrou-me a cabeça e os seus joelhos esmagavam-me os ombros com toda a força, de forma a que eu não me conseguisse mexer; a outra estava a segurar-me os joelhos, mantendo-me ao mesmo tempo as pernas afastadas. A imobilização depende muito da idade da menina e, sobretudo, da sua precocidade. Se ela conseguir mexer-se muito, porque é grande e forte, será então necessário um maior número de mulheres para a conseguir subjugar. Se, pelo contrário, a criança for pequena e magricelas, não serão precisas tantas. A mulher encarregue da operação dispõe de uma lâmina de barbear para cada uma da meninas, lâmina essa que foi comprada, propositadamente para aquilo, por cada uma das mães.

A mulher puxou o mais possível aquele bocadinho de carne com os seus dedos, e cortou-o como se estivesse a trinchar um naco de carne de zebu. Infelizmente, não conseguiu cortá-lo de uma só vez e foi então obrigada a serrá-lo.

Os berros que eu dei naquela altura ainda hoje me ecoam nos ouvidos. Chorei e gritei, desesperadamente.

(...)
A mulher continuou a cortar, a cisalhar e, ao mesmo tempo, a gozar, com um sorriso tranquilo (...)

Eu continuava a pedir socorro a toda a minha família, ao meu avô, ao meu pai, à minha mãe - eu precisava de lhes dizer qualquer coisa, de gritar o meu protesto perante aquela tamanha injustiça. Fechei então os olhoos - não quero ver; já não conseguia ver o que aquela mulher estava a fazer, a mutilar o meu corpo."

 

(...)

"Era uma dor que nunca fui capaz de definir. Nunca senti nada de tão violento em toda a minha vida. Dei à luz, sofri cólicas nefríticas - cada uma dessas dores é diferente. Pois, nesse dia, julguei que morria e que nunca mais voltaria a mim. Até cheguei a rezar para que não voltasse a acordar.

(...)
Por que é que me estavam a punir? Aquela coisa que tinham cisalhado com a lâmina de barbear, para que é que servia? Por que é que ma tiravam, se eu tinha nascido com ela?"

 

É de uma crueldade o que aconteceu a essa mulher e a todas as meninas que ainda são submetidas a este tipo de mutilação!

 

"Num cantinho da minha cabeça, continuo a rever-me sentada sob a mangueira da casa dos meus avós, ali, menina, outrora feliz e fisicamente intacta. Pronta a tornar-me adolescente, mais tarde mulher; pronta a amar, porque, forçosamente, eu iria ter esse desejo ... Mas não mo permitiram."

 

 

 

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por Paula Patricio às 22:34

4 comentários

De Tudo SobreTudo a 18.02.2009 às 09:47

Este é um tema que me desperta bastante interesse! Já tive a oportunidade de ler vários livros sobre este tema (que me revolta bastante). Mas este ainda não li....
TST

De Paula Patricio a 18.02.2009 às 11:36

Nunca tinha lido nenhuma obra sobre esta temática, embora me interesse muito por ela e por todas as que colocam a nossa condição humana em risco.
É, sem dúvida, uma grande obra, escrita por uma grande e corajosa mulher.
É uma obra que sugiro a todas as pessoas.

De Tudo SobreTudo a 18.02.2009 às 12:27

Tens o livro??
TST

De Paula Patricio a 19.02.2009 às 14:31

Sim, tenho.
Comprei-o numa feira do livro que houve na Gare do Oriente e foi uma excelente compra

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